CaraECULTURANEGRA 2014 APRESENTA


A 10ª edição do Cara e Cultura Negra nos trás ‘Áfricas Invisíveis’! Demarca aquela mesma África que há em nós e, embora integrada aos nossos percursos ancestrais, quase sempre não a vemos! Mas, também baliza outras africâneas que trilham histórias ocultadas ou esotericamente encarnadas por peles não vistas, porém que aqui se encontram: os vestígios do cárcere, os tabus e preconceitos, o apurado cultivo da pessoa humana, o sujeito enquanto ente coletivo e inscrito como ser único, porém munido de uma narrativa própria do ser sensível.

A temática permanece pioneira e singular na contemporaneidade, pois, trata de uma feição estética tênue que persiste nas diversas ramificações e áreas da atividade humana e sociocultural: população penitenciaria de vulnerabilidades criminais, de drogadição, profundos estágios de exclusão social, estigma de origens de classe, presença identitária de uma etnia racial propicia aos fenômenos da reclusão criminalizatória e preconizadora de gêneros coletivos especificamente determinados aos porões penitenciários punitivos – mães negras solteiras, moradores das periferias suburbanas, assentamentos populacionais abandonados de cuidados básicos de higiene e escoamento de esgoto, luz elétrica e água potável. Caracteres que estigmatização gerações inteiras de jovens, adultos, mulheres, adolescentes e crianças.

Em sua trilha diferencial nos estudos da diáspora, confere formato e feitio às invisibilidades histórico-culturais africanas, as versões ancestrais dos quilombos e hoje revisitadas pela lente ampliada do CaraECULTURANEGRA. Integra-se a esse percurso distintivo programa educacional e artístico, exposições, palestras e oficinas. As referidas ações explicitam processos identitários, práticas e culturalidades que evocam expressões humanas que dão visibilidade, por meio de signos imagéticos, aos modos construcionais de um ser social: peles iconográficas das Áfricas Invisíveis, narrativas de vidas tecidas pela arqueologia de víveres povos.

 

Descortinam-se uma visibilidade gestualizada em corpos, mãos, lábios, cabelos sombras e luzes, recônditos ofuscados - modos de ser e pensar, sentir e agir, condições materiais produtivas de outros povos além mar. Faces negras que se descobrem ‘em’ cobertas. Entidades vivas e deificadas. Transbordam vívidas cores, cabelos, peles, braços que se fazem abraços, mãos e olhos. Encontramo-nos nas Áfricas Invisíveis entre a partilha das experiências que universalizam nossa ancestralidade e um ser social ‘des’ colado de seu ethos vivendis. Refaz-se, assim, as vistas para tornar-se visível, a fronte, o ombro e a honradez destemida no semblante, o cultivo apurado da pessoa humana que se inscreve na visibilidade da história apropriando-se de uma presença autêntica.

As matrizes do ‘Áfricas Invisíveis’ nos visibiliza recortes da dimensão racial. Reintegra e contextualiza essas dimensões atualizando as versões que o elemento cor desempenha nos processos de invisibilização de preconceitos e ‘des’ conceitos sobre a população negra. Constitui também, instrumento de propagação das ações afirmativas e pedagógicas que viabilizem trilhas não visíveis no percurso histórico do officium curricular formal - aprendizagens e caminhos para darmos formas às negras faces e vidas ocultas tecendo diálogos estéticos e tecnológicos com o saber historicamente acumulado pelas Artes, Ciências, Linguagens e Religiosidades,círculos de convivência comunitária, transversalidade e pluralismo cultural.

Um parâmetro se faz aflorar no ‘Áfricas Invisíveis’: a imersão auspiciosa nas origens socioculturais de nosso povo. O reflexo que esses processos de ocultação causaram na produção de um modelo educacional de civilização ‘expropria-nos de nossas fontes identitárias’. E o Cara ECULTURANEGRA em seu trajeto de ‘des’ ocultação das Áfricas Invisíveis vem rompendo, em suas diversas edições, política e institucionalmente com esse modelo educacional centrado no privilégio de grupos e organizações que se favorecem no jogo das governabilidades excludentes. O ‘Áfricas Invisíveis’ apresenta um passo a mais no fenômeno educativo formal e não formal, pois, compõe-se a partir de vidas visíveis invisibilizadas. Vidas ocultas desveladas, vidas recônditas e recortadas. Vidas que se reintegram tomando a forma do ver. E, sendo vistas, visitam-nos nas suas diversidades do visível.

José Nildo de Souza
Especialmente para Flávia Portela.