Teatralidade Precária

"A 9ª edição do CaraECULTURANEGRA demarca um momento histórico em seu trajeto de produção, pois, trás a tona as cores do presídio que constitui na contemporaneidade as versões antigas do cárcere, verdadeiras masmorras e quilombos onde se ocultam as exclusões de um dividendo sociocultural que o Estado brasileiro possui com a sociedade – a escravização dos negros, a dizimação dos índios, as trocas e favorecimentos autoritários no poder pelas oligarquias políticas e hoje classistas que se perpetuam nos estágios da governabilidade da intitulada democracia participativa. (...)

Modos de ser e pensar, sentir e agir constituem assim, as condições materiais produtivas do Cara e Cultura Negra 2013. Tratamos de faces negras. Entidades vivas, antes deificadas na exclusão. Mas, agora vertem aspectos sui generis graduados em cores, cabelos, peles, braços que se fazem abraços, mãos e olhos. A partilha da experiência do ser social no cárcere intitulada A Teatralidade Precária é oficina, laboratório e prática socioeducativa para se contextualizar as matrizes de uma reflexão para ações pedagógicas reintegradoras com jovens e adultos sentenciados e em tratamento psicossocial. Possibilita análise crítica e social do atual momento que vive as politicas e instituições que lidam com o fenômeno da reinserção sujeitos em restrição de liberdade. Aprofunda na perspectiva do Cara e Cultura Negra um recorte na dimensão racial – o papel que o elemento cor desempenha na trajetória de jovens e adultos condenados à pena de prisão.

A Linguagem Corporal Reclusa ou A Teatralidade Precária apresenta ao Cara e Cultura 2013 um passo a mais para que a educação seja um efetivo instrumento de ruptura com esse status e modelo de privilégio. Compõe-se a partir das metodologias de histórias de vidas. Vidas rompidas, vidas recortadas pelo cárcere. Vidas vividas e não escritas. Escritas e não lidas. Lidas e não interpretadas. Vidas asujeitadas. Sujeitos abjetivados de suas histórias. Autores anônimos que se tornam interpretes de uma cena detida agora refeita. Sujeitos apenados, como todos os demais, têm histórias de vida para além do cárcere: memórias da escola; situações de preconceitos ou estigmatizações étnicas de classe ou gênero; o percurso excludente ou de desestruturação familiar; o abandono do lar e dos filhos; as separações conjugais; o desemprego e a indigência, o alcoolismo e a dependência química, etc. E o delito que os levou à prisão é parte dessa história. Porém, não se associam a esse trajeto de vulnerabilidades, passando quase que subliminarmente, os fenômenos identitários do elemento cor, que se tornam propulsores na determinação das marcas da prisão na pele. Sendo essa pele, um revestimento do próprio cárcere e também, aquilo que o oculta. O Cara e Cultura Negra 2013, incorporando ao seu trajeto social e educativo a prática ressocializadora A Linguagem Corporal Reclusa ou a Teatralidade Precária oportunizam, assim, a construção de espaços coletivos que protagonizam as vozes e as cores de classes, gêneros, etnias e crenças que constituem as bases de nossas tradições históricas formativas.

José Nildo de Souza


FOTO JOSÉ IVACY DE SOUZA